
Em agosto de 1883, o astrónomo mexicano José Bonilla fotografou uma armada de objetos não identificados desfilando diante do disco solar. Ridicularizado por Paris, ignorado durante um século, seria finalmente reabilitado pela ciência moderna — que revelaria que a Terra esteve talvez a um passo da destruição total nesse mesmo dia.
Uma manhã ordinária no observatório do deserto
No dia 12 de agosto de 1883, José Árbol y Bonilla, diretor do Observatório Astronómico do Estado de Zacatecas, preparava o seu instrumento para uma sessão de observação das manchas solares. Nada presagiava o extraordinário. O céu estava límpido sobre o alto planalto de Zacatecas, a 2 400 metros de altitude, e a luz da manhã era clara e nítida. O próprio observatório era uma instituição recente: inaugurado a 6 de dezembro de 1882 — há apenas nove meses —, era o primeiro grande observatório mexicano fundado fora da capital. Bonilla era o seu primeiro diretor, homem de rigor científico formado em fotografia celeste durante uma estadia no Observatório de Paris.
Então os objetos apareceram.
Escuros, nebulosos, recortando-se sobre o disco branco do sol, atravessavam o campo do telescópio em grupos sucessivos. Bonilla observou-os, contou-os, desenhou-os, anotou com precisão a hora da sua entrada e saída do fundo solar. Alguns passavam sozinhos; outros chegavam em grupos de quinze a vinte de uma só vez. A sua velocidade era variável — uma fração de segundo a um segundo completo para atravessar o disco —, as suas formas, alongadas e indefinidas, resistiam a qualquer classificação. O astrónomo tomou uma decisão: fotografar.
Utilizando o processo das placas húmidas de colódio — a técnica fotográfica de vanguarda da época, que dominava desde a sua passagem por Paris —, Bonilla expôs as suas placas a um centésimo de segundo, ao ritmo frenético do aparecimento dos corpos. Este trabalho estendeu-se por dois dias: no dia 12 de agosto contou 283 objetos distintos; no dia 13, outros 164 se seguiram. No total, 447 entidades atravessaram o sol em menos de três dias e meio de observação. Nenhum outro observatório no mundo — nem Cidade do México, nem Puebla, nem qualquer posto europeu — notificou qualquer coisa análoga.
O silêncio de Bonilla, a condescendência de Paris
O comportamento de Bonilla após a observação é em si mesmo digno de nota. O astrónomo não cedeu à tentação do sensacionalismo. Registou escrupulosamente o que tinha visto, arquivou as suas placas, copiou as suas notas — e guardou silêncio. Não propôs qualquer hipótese explicativa. Não invocou meteoros, nem fenómenos atmosféricos, nem qualquer categoria pré-estabelecida que lhe permitisse fechar ordenadamente este incómodo dossier.
Só dois anos e meio após os factos é que Bonilla se resolveu a transmitir o seu relatório a Camille Flammarion, fundador e diretor da revistaL'Astronomie, publicada em Paris desde 1882. Flammarion era, na época, uma das figuras mais influentes da divulgação científica europeia — autor daAstronomie populaire, publicada em 1880, fundador em 1887 da Société astronomique de France, personalidade inclassificável na fronteira entre o racionalismo e o misticismo. Foi ele quem recebeu o documento de Zacatecas.
A resposta de Paris foi publicada a 1 de janeiro de 1886, no primeiro número deL'Astronomiepara o novo ano. Foi devastadora. A redação propôs que os objetos fotografados por Bonilla eram, com toda a probabilidade, aves migratórias voando a grande altitude, ou insetos pousados sobre a objetiva do telescópio. O argumento era engenhoso à sua maneira: se os corpos se encontrassem a alguns centímetros da lente — e não no espaço —, a sua presença só teria sido detetável em Zacatecas, o que explicaria a ausência de qualquer observação simultânea noutro lugar. Bonilla rejeitou esta interpretação. Mas não insistiu. Não tinha uma contra-hipótese a oferecer, e a revista parisiense havia passado a outros assuntos.
Durante cento e vinte e oito anos, a observação de Zacatecas permaneceu como o que os astrónomos chamam umacuriosidade sem explicação— um facto documentado, órfão de sentido.
A reabilitação pela UNAM: uma passagem rasante cometária
Em 2011, três astrónomos da Universidad Nacional Autónoma de México reabriram o caso. Héctor Javier Durand Manterola, do Instituto de Geofísica, María de la Paz Ramos Lara e Guadalupe Cordero publicaram no arXiv, a plataforma aberta de pré-publicações científicas, um artigo intitulado:Interpretation of the observations made in 1883 in Zacatecas (Mexico): A fragmented Comet that nearly hits the Earth.
O seu método era geométrico. Explorando um facto simples — os objetos só tinham sido observados em Zacatecas, e não a partir de Cidade do México nem de Puebla, situadas a algumas centenas de quilómetros —, os investigadores calcularam a distância máxima a que os corpos podiam encontrar-se para permanecerem invisíveis a partir desses outros dois pontos. O resultado foi vertiginoso. Os objetos que Bonilla fotografou não estavam na alta atmosfera. Tampouco a meio caminho do Sol. Roçavam a superfície da Terra.
Segundo os cálculos de Durand Manterola e dos seus colegas, os fragmentos passaram a uma distância compreendida entre 538 e 8 062 quilómetros da superfície terrestre. Para calibrar esta proximidade: a Estação Espacial Internacional orbita a cerca de 400 quilómetros de altitude. Estes objetos roçaram a Terra no sentido mais literal do termo — dentro do cinturão orbital baixo, a uma altitude que a própria humanidade só atingiria setenta e oito anos mais tarde.
As dimensões estimadas dos fragmentos são igualmente perturbadoras: entre 46 e 795 metros de largura, entre 68 e 1 022 metros de comprimento. A massa individual dos corpos teria oscilado entre várias centenas de milhões e vários biliões de quilogramas. A massa total do objeto progenitor — antes da sua fragmentação — teria sido comparável à do cometa Halley, talvez várias vezes superior.
A analogia Shoemaker-Levy e o cometa que não colidiu
O precedente científico mais esclarecedor é o do cometa Shoemaker-Levy 9. Descoberto em março de 1993 pelos astrónomos Carolyn e Eugene Shoemaker e David Levy no Observatório de Palomar, tinha sido previamente capturado por Júpiter e fragmentado durante uma passagem demasiado próxima do planeta gigante em julho de 1992. Em julho de 1994, os seus vinte e poucos fragmentos colidiram sucessivamente com Júpiter, deixando na sua atmosfera cicatrizes do tamanho da Terra, visíveis a partir de telescópios amadores em todo o mundo. A energia libertada foi estimada em vários milhões de megatoneladas de TNT.
O que os astrónomos da UNAM sugerem é que, no dia 12 de agosto de 1883, um cometa de escala comparável ao Shoemaker-Levy — talvez mais massivo — roçou a Terra sem que nenhum ser humano, à exceção de José Bonilla, disso fosse testemunha. Se a trajetória tivesse diferido alguns milhares de quilómetros, se um único fragmento tivesse atingido a atmosfera em vez de a roçar, os impactos poderiam ter desencadeado tsunamis planetários, nuvens de poeira que teriam obscurecido o sol durante anos, uma extinção em massa. A civilização industrial da época — nos alvores da Belle Époque, a uma década da Conferência de Berlim e da partilha de África — poderia ter sido aniquilada sem jamais compreender o que a havia golpeado.
Nas suas notas originais, tal como reproduzidas emL'Astronomiede 1886, o próprio Bonilla descreveu o comportamento dos corpos com uma precisão que impressiona retrospetivamente:«Os intervalos de tempo eram variáveis, um corpo ao passar não demorava mais de um terço, meio segundo, ou no máximo um segundo a atravessar o disco, e passavam um ou dois minutos antes que outros aparecessem — alguns passavam de 15 a 20 de uma vez, de modo que era difícil contá-los. Tracei a trajetória de muitos destes corpos sobre o disco solar, marcando as suas "entradas" e "saídas" no papel.»
As fotografias: as primeiras imagens de um OVNI?
As placas fotográficas de Bonilla, conservadas nos arquivos do Observatório de Zacatecas, ocupam um lugar singular na história da imagem astronómica. Constituem uma das primeiras fotografias de objetos voadores não identificados alguma vez realizadas. Este facto, recuperado durante muito tempo pela literatura ufológica da segunda metade do século XX — Jimmy Guieu, Frank Edwards e Henry Durrant referenciaram-no cada um em obras de muito diverso rigor interpretativo —, adquire um significado radicalmente diferente à luz dos trabalhos de 2011: os objetos fotografados eram reais, sólidos, de dimensões colossais, e encontravam-se a distância quase orbital da Terra.
A ufologia popular bordou com entusiasmo sobre estas imagens: naves extraterrestres, formações militares secretas, dirigíveis desconhecidos. Todas estas interpretações naufragam perante uma mesma constatação: em 1883, nenhuma potência terrestre dispunha de uma frota de 447 aeronaves capazes de orbitar a menos de 8 000 quilómetros de altitude. A verdade, tal como a reconstroem os astrónomos mexicanos do século XXI, é ainda mais vertiginosa: tratava-se de destroços cometários em trânsito rasante, um rosário de rochas celestes cuja menor unidade superava a altura de um edifício de vários andares e cuja maior rivaliza com os maiores asteroides do cinturão principal.
Bonilla, homem da medida diante do inominável
Talvez o mais impressionante neste caso seja a atitude intelectual do próprio Bonilla. Formado em Paris na tradição do rigor observacional, diretor de um observatório periférico numa nação que ainda buscava reconhecimento científico internacional, este homem confrontou-se com o inexplicável e escolheu a única atitude verdadeiramente científica: registar sem concluir. Não procurou impor uma explicação. Não inflacionou os seus números. Anotou 283 objetos no primeiro dia, 164 no segundo, descreveu as suas trajetórias, fotografou as suas silhuetas indefinidas, e apresentou o seu relatório sem ornamentos.
A comunidade internacional tratou-o com condescendência. Paris encontrou pássaros onde Bonilla tinha visto corpos sólidos a atravessar o espaço a velocidades prodigiosas. A história deu-lhe razão.
Em 2011, um século e um quarto após os factos, astrónomos mexicanos — trabalhando no mesmo país, na mesma tradição nacional que havia formado Bonilla — releram as suas notas, refezerem a sua geometria, e estabeleceram que naquela manhã de agosto de 1883, sobre os altos planaltos de Zacatecas, a Terra havia roçado uma catástrofe de extinção sem o saber. O observador solitário que havia contemplado o Sol naquele dia e anotado fielmente o que via era o único ser humano sobre a Terra a ter sido, em completa inconsciência, testemunha de uma das maiores passagens rasantes da história do nosso planeta.
Documento de arquivo — Excerto do relatório de José Bonilla, publicado emL'Astronomie, 1 de janeiro de 1886
«No dia 12 de agosto de 1883, no Observatório de Zacatecas, observei um grande número de corpos escuros e opacos a atravessar o disco solar em direções variadas. Os seus intervalos eram irregulares, e a duração do seu trânsito variava entre um terço e um segundo completo. Alguns deslocavam-se de forma isolada; outros apareciam em grupos de quinze a vinte unidades, o que tornava a sua contagem difícil. Tracei no papel as trajetórias de vários deles, anotando os seus pontos de entrada e saída no disco. A sua natureza permanece, para mim, inexplicada.»
— José Árbol y Bonilla, diretor do Observatório Astronómico de Zacatecas, México
OVNI - 27 juin 2026 - Wakonda -
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